Casa CL2

Portugal
CL2

A Casa CL2 ergue-se num lote destinado à construção em banda, num alinhamento urbano pensado para a repetição. No entanto, onde o planeamento previa uniformidade, surgiu uma resposta singular, adaptada não à norma, mas à vida concreta de uma família. Ao invés de replicar um modelo genérico, a Casa CL2 interpreta a especificidade das rotinas, das relações, do modo de habitar.

Trata-se de uma casa de três pisos onde a clássica estratificação em cave, rés-do-chão e primeiro andar serve de base a uma construção que se apropria criticamente do contexto. O piso térreo, ligeiramente sobrelevado face à rua por imposição do loteamento, transforma essa condicionante em oportunidade, potenciando a privacidade em relação à via pública e facilitando o acesso à cave. Essa elevação liberta o edifício do chão e confere-lhe uma presença mais nítida no tecido construído.

A volumetria da casa resulta do diálogo com os alinhamentos e cotas preexistentes mas também de um exercício consciente de composição. Avanços e recuos desenham uma coreografia de cheios e vazios, de aberturas e opacidades que ora expõem, ora protegem. A privacidade e a luz são aqui calibradas com precisão.

A lógica interior da casa organiza-se em torno de um elemento central: a escada. Esta assume-se como espinha dorsal, ligando verticalmente os três pisos enquanto regula a distribuição e a hierarquia dos espaços. Na cave, a escada assume-se como muro, separando a garagem da zona social e de lazer, criando independência sem ruptura. Este piso acolhe momentos mais introspectivos e de convivência tranquila, mantendo-se em ligação com o restante da casa através da presença estrutural da escada.
No rés-do-chão, o ponto de chegada é um átrio habitável marcado por um pé-direito duplo que amplia a percepção do espaço e o enche de gravidade. Uma clarabóia contínua percorre toda a sua extensão e verte luz natural com uma densidade quase táctil, projectando sombras móveis ao longo do dia e fazendo deste espaço o verdadeiro núcleo atmosférico da casa. Este eixo vertical de luz estrutura a experiência da entrada e reverbera pelos restantes ambientes, conferindo-lhes coesão e centralidade.

A partir deste espaço, a casa organiza-se em três quadrantes: a cozinha, a sala de estar e jantar e o próprio átrio habitável. Entre cozinha e sala de jantar estabelece-se um segundo eixo de luz, agora horizontal, que atravessa a casa e a liga ao logradouro, criando transparências e uma continuidade visual entre interior e exterior. Este jogo de orientações de luz acentua a fluidez espacial e prolonga a vivência para além dos limites construídos.

No centro deste conjunto, a escada manifesta-se como um corpo escultórico e permeável que regula os fluxos sem os interromper. A sua presença é simultaneamente discreta e determinante, organizando os espaços sem os compartimentar e reforçando a ideia de uma casa pensada em continuidade onde a luz, mais do que os muros, é o verdadeiro elemento de separação e encontro.

No piso superior, o percurso ascendente culmina num espaço de transição que é simultaneamente lugar de chegada, circulação e trabalho. Um escritório informal ocupa este patamar, delimitado por uma estante transparente que permite a continuidade visual com o átrio habitável no piso inferior. Este gesto prolonga o eixo vertical de luz iniciado pela clarabóia, mantendo a ligação visual e atmosférica entre os dois pisos e dissolvendo a rigidez dos limites programáticos.

Neste espaço, um lanternim cuidadosamente posicionado filtra uma luz crua e constante, quase perpendicular, que atravessa o dia sem variações dramáticas. Esta luz discreta mas firme estrutura silenciosamente o ambiente de trabalho e confere-lhe uma certa solenidade doméstica.
A partir deste patamar, o acesso aos três quartos processa-se de forma natural, sem corredores fechados ou articulações forçadas. A distribuição privilegia a intimidade, mas nunca se afasta da lógica de continuidade espacial que define toda a casa. Cada divisão assume a sua autonomia, mas mantém-se ligada ao todo por uma coerência de luz, material e proporção.

A Casa CL2 é um exercício de contenção e precisão, onde cada decisão construtiva procura responder a uma lógica de habitar própria, sem ruído e sem ostentação. Uma arquitectura silenciosa, mas profundamente comprometida com o essencial.

  • Ano de Projecto: 2017
  • Área: 406m2
  • Localização: Leça da Palmeira | Matosinhos
  • Código: 17CL2
  • Coordenadores:
  • Henrique Marques | Arquiteto
  • Rui Dinis | Arquiteto
  • Colaboradores:
  • Tiago Maciel | Arquiteto
  • Adriana Pacheco | Arquiteto
  • Fred Delgado | Arquiteto
  • Joana Leitão | Arquiteto
  • João Ortigão | Arquiteto
  • Marco Santos | Arquiteto
  • Directora Financeira:
  • Carla Duarte | Doutora
  • Fotografia: FG+SG
  • Design Mobiliário: Bairro Design
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